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Orange Is the New Black - 4ª temporada - Análise e resenha social

O seguinte texto contém spoilers sobre a série até sua 4ª temporada

por Paula Berlim, Brasil 
01 de Agosto de 2016


Orange Is the New Black é uma série produzida pela Netflix e baseada em livro honônimo de Piper Kerman, em que a autora discorre sobre sua pena, de 15 meses, comprida por lavagem de dinheiro. A produção acaba de lançar a quarta temporada e renovou para mais três. Com enredos muito bem desenvolvidos e personagens diversos e complexos, abordando temas urgentes  na sociedade atual, a série é, sem dúvidas, um dos maiores sucessos do "Original Netflix". 

Em sua quarta temporada, porém, parece que o programa foi levado a um nível impressionante em se tratando de debates raciais, classistas, violências de gênero e policial e abuso de autoridade. Sem dúvidas, é a melhor sequência de 13 episódios apresentada até aqui. Neste texto, será destrinchado como cada tema mencionado foi apresentado pelo programa.

O primeiro episódio começa, logo de cara, com a superlotação de Litchfield - a prisão feminina de Nova York -, proporcionada pela privatização da unidade, que estava a ponto de se extinguir com o descaso federal causada pela falta de verba e corrupções - representação clara da incapacidade do estado misturado aos efeitos da exploração de uma empresa capitalista. A nova direção corporativista vai adiante, e uma série de mudanças acontecem na prisão: uma empresa de fabricação de calcinhas é instalada na unidade, escravizando as detentas à produção de roupas íntimas com o pagamento de um dólar a hora; a contratação de guardas ex combatentes de guerra sem qualificação e, principalmente, sem treinamento necessário para saber lidar com uma prisão feminina, e compras de alimentos pré preparados que parecem verdadeiras rações para alimentar a prisão. A série deixa explícito a todo momento sua posição contrária ao que muitos apontam como solução do problema carcerário: a privatização das prisões. Um momento marcante é quando o diretor Joe Caputo (Nick Sandow) e a representante da corporativa, Lisa, vão a uma feira sobre prisões e o que se vê são empresas vendendo produtos de arma de laser, cercas de última geração etc. Empresas lucrando com a violência, com a superlotação, com prisões.

Como consequência da superlotação e condições lamentáveis, as tensões sociais aumentam, resultando em formação de guetos, discursos e crimes de ódio proferidos às pessoas que são socialmente oprimidas por cor, nacionalidade e gênero. Sophia Burset (Laverne Cox), a personagem transexual e negra (interpretada por uma atriz, de fato, transexual e negra, e isso é importante ressaltar) sofre ataques transfóbicos verbais e físicos, sendo duramente agredida em seu local de trabalho na prisão, um salão de beleza. Como resposta, a direção a despeja na solitária, com o falso discurso de "para a própria proteção dela". Em certo momento da temporada, mulheres brancas discriminam as latinas e negras ao estilo nazista e cabeça raspada, questionando a campanha #BlackLivesMatters - e aqui a produção acerta em cheio ao dialogar com a realidade americana, fatos que ocorrem a todo momento envolvendo tensão racial nos Estados Unidos. Na série, as brancas que proferem "WhiteLivesMatters/"AllLivesMatters", assim como muitos americanos proferiram em redes sociais, são retratadas como verdadeiras pessoas racistas - o que de fato são - ao ignorarem todo o apelo e todo o significado político da luta negra contra a opressão policial e o genocídio da população negra.

Litchfield, além de receber mais e mais detentas, recebe também novos guardas. Na quarta temporada, ex combatentes de guerra e pessoas incompetentes são recrutados para vigiar a prisão e, pior de tudo, não recebem o devido treinamento para o trabalho. Chefiados pelo capitão Piscatella (Dimitrios Kambouris) -a verdadeira representação, junto com seus guardas, do abuso de autoridade e negligência policial -, as detentas são revistadas ao todo momento e mantidas em rédea curta. Uma das histórias mais triste fica por conta da personagem caipira, Doggett (Taryn Manning), que constrói uma relação de amizade com o guarda Coates (James McMenamin) mas é friamente estuprada por ele . Orange Is the New Black aborda a cultura do estupro de uma forma muito real. O fato mais interessante é que Coates não tinha dado conta de que ele estuprou Doggett até ela falar pra ele que foi um estupro
   
"Foi isso que acha que eu fiz com você?" (o estupro)
  
"Sim"
  
"Mas eu disse que te amo"

Cultura do estupro envolve várias circunstâncias, situações e envolvimentos, Ele pode acontecer na rua, na balada, pelo seu amigo, em um casamento, em casa.

Por fim, o maior drama da temporada - e, de quebra, da série - fica por conta da morte de Poussey (Samira Wiley) em um protesto pacífico contra Piscattela. Protesto este que pedia a demissão do capitão e demonstra toda a insatisfação e recusa das mulheres de Litchfield em se sujeitarem à violência do estado, da empresa, do sistema. Morreu sufocada pelo joelho do guarda Bayley - o mais jovem e menos ameaçador da equipe - durante ação para impedir o protesto. Poussey era uma mulher negra, de um sorriso encantador e de um humor inigualável. Fora presa por porte de algumas gramas de droga. Morta por tentar acalmar Suzanne "Olhos Loucos" (Uzo Aduba) e evitar que a amiga fosse levada para a psiquiatria por ordem de Piscatella. E seu corpo ficou no piso, e ficou até a manhã seguinte. De repente, Poussey não era mais Poussey. Poussey era apenas um corpo vazio deitado no chão.

O anúncio oficial de Joe Caputo comunicando que a morte foi um acidente e que o guarda envolvido não seria demitido inflamou todas as detentas. Não necessariamente pela morte de Poussey, mas por todas outras injustiças cometidas dentro daqueles muros carcerários. Elas encurralam dois guardas. Negras, latinas, brancas, todas juntas. Um deles tenta sacar uma arma e é derrubado, a pistola vai parar na mão de Dayanara Diaz (Dascha Polanco), personagem que foi engravidada e abandonada por seu então amor, o guarda Bennet (Matt McGorry) . Os nervos da revolta pulsam mais fortes que nunca, e pela primeira vez a hierarquia do poder é revertida para as mãos das detentas. Com a arma apontada para o guarda "braço direito" de Piscatella, o que você faz?

Este final chocante leva o espectador a dimensões complexas acerca do funcionamento das opressões estruturais em uma sociedade cada vez mais capitalista; excelentes personagens e tramas desenvolvidas minuciosamente, por meio de flash backs e evolução psicológica individual, culminam num final coletivo revolucionário muito bem orquestrado desde o primeiro episódio dessa quarta temporada. Resta aguardar o que a quinta temporada tem para nos mostrar e, se mantiver o nível, com certeza a história será espetacular.