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A tripla jornada de trabalho da Mulher e as relações de dominação nas esferas públicas e privadas

O tempo gasto na manutenção da casa é de 9,1 horas semanais para os homens e de 21,8 para as mulheres


O ingresso da mulher no mercado de trabalho vem se intensificando desde a primeira Revolução Industrial e, concomitantemente, as tensões da divisão de trabalho por gênero também. Apesar da aparente conquista de liberdade e independência do gênero feminino perante o mercado de trabalho, as mulheres enfrentam, hoje, dupla e até tripla jornada de trabalho. Tal fato decorre de que o ambiente público - isto é, o ambiente profissional - é estruturado por uma relação de dominação em que o "princípio masculino é tomado como medida de todas as coisas" (Pierre Bourdieu), e o espaço privado - ou doméstico - predomina o modelo tradicional de família: toda a responsabilidade de criar os filhos e cuidar da casa recai inteiramente sobre a mulher. Com essas reconfigurações familiares, atualmente são cobrados do gênero feminino o sucesso e a realização plena em esferas comandadas pela dominação do gênero masculino, como excelências profissional e academicista, além de exercer, ao mesmo tempo, o que a sociedade espera da feminilidade, isto é, dedicar-se à casa e à criação dos filhos. A tal da tripla jornada de trabalho.

O Âmbito profissional

Como na primeira Revolução industrial, a inserção da mulher no mercado de trabalho é embasada em uma interiorização de um sistema eminentemente masculino promovido por instituições sociais como a família, a escola e o próprio trabalho. Se na revolução industrial as mulheres foram submetidas a trabalhos exploratórios e sub-humanos, hoje, apesar de já possuírem nível de instrução maior que os homens, recebem apenas 58% do salário masculino comparado com o mesmo nível de formação (IBGE 2010).  Tal desigualdade, porém, é muitas vezes deixada de lado inconscientemente pelas próprias mulheres. Estas, muitas vezes, enxergam a desigualdade apenas na divisão do trabalho doméstico. 

Divisão do Trabalho Doméstico

É fato que o machismo interiorizou em homens e mulheres a ideia de que os afazeres domésticos são destinados ao gênero feminino. Não só a casa, mas os fatores sensibilidade e instinto protetor de maternidade são erroneamente atribuídos às mulheres. O argumento que sustenta essa ideia é baseado no fator biológico de que a mulher seria o "sexo frágil". Para Pierre Bourdieu, entretanto, essas características não são naturais, mas reproduzidos socialmente por homens e mulheres. O corpo é a materialização dessa reprodução, ele é fator para determinar quem será o dominante e o dominado.  Atualmente, ainda a maioria dos homens e mulheres introjeta e reproduz esta forma de divisão de trabalho, fruto da família patriarcal, embora tanto a mulher quanto o companheiro devam ser encarregados de prover a casa juntamente. As pesquisas do IBGE de 2005 comprovam que a massiva inserção das mulheres no mercado de trabalho não reduziu a sua jornada nos afazeres domésticos. O tempo gasto na manutenção da casa é de 9,1 horas semanais para os homens e de 21,8 horas para as mulheres. Mais que o dobro. Para Jacobs (2004), o que deveria ser, na teoria, um modelo mais igualitário entre os gêneros acaba por ser justo o contrário, trazendo inúmeros problemas para a mulher. 


É fato, portanto, que, no mercado de trabalho, a mulher é regida pelo "princípio masculino, tomado como medida de todas as coisas", vivenciando uma esfera de desigualdade salarial e sexual - ao sofrer, por exemplo, assédios -, ao passo que a esfera familiar permanece um espaço destinado às mulheres determinado pela dominação social, sustentada pela herança cultural machista. 

Referências

A Arte de ser Beija-flor na tripla jornada de trabalho

A Divisão de tarefas domésticas entre homens e mulheres no cotidiano do casamento