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A Luta do Século parte I - Uma luta, dois mundos: Muhammad Ali vs George Foreman

Muhammad Ali não se conformava com os padrões e crenças de um país em que a tensão racial era sólida


A The Rumble in the Jungle ou a Batalha da Selva travada em Kinshasa, no Zaire em 1974 entre Muhammad Ali e George Foreman, teve uma dimensão que transbordou as fronteiras do esporte e inundou aspectos políticos e socioeconômicos.  Num enfoque esportivo, a luta, cujo objetivo era a disputa pelo Cinturão dos Pesos Pesados, foi de extrema qualidade, uma vez que os dois boxeadores tinham grande habilidade. Foreman era considerado pela sua força e frieza o ser humano mais temível que andava pela Terra, e Ali, o qual recuperou o título perdido em 1967, demonstrou inteligência, destreza e estratégia brilhantes que o tornaram  novamente campeão.

Embora ambos negros, a diferença entre eles era gritante. Enquanto George Foreman era adepto aos valores norte americanos e muito bem visto pela população dos EUA, Muhammad Ali não se conformava com os padrões e crenças de um país em que a tensão racial era sólida e extremamente enraizada na vida e nas concepções das pessoas. No livro de Norman Mailer, A Luta, a distinção entre os boxeadores se apresenta antes do embate, logo nos primeiros capítulos, quando o então campeão dos Pesos Pesados, hospedado em um hotel, tentava esquecer que estava na África ao mesmo tempo em que Ali se abrigava em Nsele, numa vila oposta à margem do Zaire, local onde se aspirava ar africano. 

Antes da luta e mesmo após a vitória de Ali, ficam claras a polarização e a diferença entre o país desenvolvido, materializado pelos EUA e pelo sonho americano, e os territórios subdesenvolvidos, a África em geral, que, na visão de Mailer, estava abatida pela fome. Muhammad desde muito cedo se empenhou em praticar esse esporte, o qual era considerado uma exclusão de influências externas, de acordo com o livro A Luta. De mãos dadas com a prática do boxe, Ali lutou contra o racismo vigente nos EUA e no mundo, empenhou-se contra a Guerra do Vietnã e a favor da liberdade religiosa. Dessa forma, sua figura e conduta eram totalmente contrárias à hegemonia norte americana e ao racismo, o qual deixava a sociedade negra dos EUA e as da África em situações precárias, à mercê da própria sorte. Impulsionado pelos gritos dos zairenses e surpreendendo a maior parte da população mundial que assistia à luta, cujo horário – quatro horas da manhã – privilegiava os espectadores dos EUA, Ali venceu e tornou-se mais que o orgulho para o povo negro, tornou-se inspiração de superação do racismo e de conquista de objetivos.

Assim como em sua frase “Não quero ser líder, mas livre”, o campeão batalhava para que todos os negros fossem livres de quaisquer amarras. Após a vitória, sua luta por igualdade adquiriu uma nova dimensão quando Ali golpeou a hegemonia dos EUA. O primeiro golpe, no passado, foi ao converter-se ao Islamismo e trocar seu nome Cassius Marcellus Clay Jr, considerado por ele nome de escravo, e o segundo ao vencer o seu oponente, Foreman, favorito dos norte-americanos brancos no território do ditador Mubutu, colocado no poder com a ajuda da CIA e apoiado pelo governo dos EUA. Independentemente da consequência, Muhammad não abandonava seus princípios,

As palavras de Ali “não queremos perder a identidade misturando nossos sangues e a nossa bonita história africana. Não odiamos quem é branco. Mas queremos permanecer negros. Adoramos a nossa cor. Eu me amo” sintetizam uma de suas maiores contribuições: lutar pelo fim do racismo, por direitos e por uma autoestima da população negra. Em função disso, a vitória de Ali transbordou os ringues e o boxe fez dele um herói para o mundo.


Matéria escrita por Júlia dos Santos Sahão, estudante de Jornalismo na Unesp, em colaboração com a Revista Pauta.