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A Luta do Século parte II - Bibliografia de Campeões do Peso Pesado e da Escrita

Enquanto Foreman representava a ilusão e alienação do sonho americano, Ali situava-se no conhecimento do pan-africanismo


Nascido em Louisville, em 1942, Muhammad Ali foi um pugilista norte-americano, classificado como “O Desportista do Século” pela revista Sports Illustrated (1999). Cassius Marcellus Clay Jr, o mais velho de dois irmãos, era descendente de escravos afro-americanos do sul dos Estados Unidos. Deixou de usar seu nome de batismo quando se converteu ao islamismo, passando a utilizar o nome pelo qual é conhecido mundialmente.

Joe E. Martin foi o intermédio do primeiro contato de Muhammad Ali com a luta. O chefe de polícia e técnico de boxe o encontrou desejando combater com força física um ladrão que tentara roubar sua bicicleta, e a partir daí sugeriu que o garoto de apenas 12 anos aprendesse a lutar boxe.
Ali ganhou seis títulos Golden Gloves em Kentucky, dois desse mesmo título em esfera nacional, o título americano de Amateur Athletic Union, e medalha de ouro em Meio-Pesado nas Olímpiadas de Verão em Roma (1960). Ganhou também o título mundial de campeão dos pesos-pesados, em 1964, mas o perdeu três anos depois, e, após recuperá-lo três vezes, retirou-se do boxe enquanto ainda campeão.
            
Protagonizou lutas épicas, entre elas “A luta do século”, na qual enfrentou Frazier, em 1971. Também entrou para a história por conta da vitória sobre George Foreman, em 1974, cuja luta, conhecida como “Rugido da Selva”, foi eternizada no livro A Luta, de Norman Mailer, no documentário ganhador do Oscar, “Quando Éramos Reis”, e em um filme estrelado por Will Smith, “Ali”.
            
Muhammad Ali pode ser considerado como o primeiro esportista a conciliar modalidade com visão política. O lutador afro-descendente foi impedido de lutar por três anos e perdeu pela primeira vez seu título mundial, por se recusar a servir na Guerra do Vietnã. Em 1967, declarou enquanto esteve em Louisville para dar apoio ao combate da população que visava moradia: “Não vou viajar dez mil milhas para ajudar a assassinar e queimar outra nação pobre para que simplesmente continue a dominação dos senhores brancos sobre os povos de cor mais escura mundo afora.”
            
O posicionamento político de Ali destacou-se também durante sua luta com George Foreman para recuperação do título de número um do mundo. Enquanto Foreman representava a ilusão e alienação do sonho americano, Ali situava-se como o lutador da África, por todo o conhecimento do pan-africanismo que possuía.
           
Já fora dos ringues, Muhammad foi diagnosticado com mal de Parkinson em 1984. De maneira nobre, usou seu reconhecimento e fama para ajudar as pesquisas que buscam cura para tal doença, e até chegou a fazer tratamento com células-tronco. A doença nunca o impediu de participar ativamente do debate público, e foi um marco do início da etapa dedicada a causas humanitárias. Suas atitudes, experiências e aparições foram homenageadas na escolha do esportista para acender a tocha olímpica nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996.
            
Mesmo doente, não deixou de viajar para encontrar líderes políticos, participar de eventos beneficentes e transmitir a mensagem de igualdade que representava. Em 2005, desembolsou milhões para construir o Muhammad Ali Center, em Louisville, um centro de atividades que inspira crianças e adultos e perpetua seus princípios e valores. O ex-lutador foi nomeado pela ONU como Mensageiro da Paz e recebeu a Medalha Presidencial a Liberdade – maior honraria civil norte-americana.


Como um símbolo de orgulho da identidade afro-americana, Muhammad Ali faleceu em 2016, quando perdeu a luta mais difícil de sua vida contra uma doença que afetava seus movimentos, e teve complicações respiratórias enquanto estava internado. Deixou sua imagem transparecida na história do esporte, e na história dos Estados Unidos, como um ícone negro de um país racista, que criou sua identidade e reafirmou diversas vezes a sua liberdade.

George Foreman

George Edward Bill Foreman nasceu em 1949, no Texas. Incentivado pelos pais a lutar, tornou-se boxeador profissional em 1969.
            
Seu título mundial se deu em 1973, o qual foi perdido no ano seguinte na luta histórica contra Muhammad Ali, e também no ano de 1994. Nessa última luta, Foreman já tinha 45 anos e, nocauteando o jovem de 26, Michael Moorer, ficou conhecido como o campeão de pesos-pesados com a idade mais avançada.
            
Participou de 81 lutas, vencendo 76 delas. Logo em 1961, o lutador acumulava 12 lutas e vitórias em todas elas, 11 sendo por nocaute. Entre alguns pugilistas que ele havia derrotado até aquele ano, estava Cookie Wallace, contra o qual a luta durou apenas 23 segundos.

George foi considerado pela revista The Ring como o 25º melhor lutador dos últimos oitenta anos, e, juntamente com esse título, recebeu pela ESPN, a classificação como 20º maior lutador de todos os tempos.
            
Dentre as lutas que marcaram a carreira de Foreman e entraram para a história do esporte, é encontrada a conhecida como The Sunshine Showdown, em 1973 contra Joe Frazier. O momento mais memorável dessa luta foi o último soco dado por George, tão forte que chegou a levantar seu oponente do chão.
            
A outra luta famosa, cujo protagonismo se deu também a Foreman, aconteceu em 1974 contra Muhammad Ali. Foreman era o grande favorito para esse combate, já que Ali já havia sido derrotado em quatro difíceis lutas contra Frazier e Norton, enquanto George já tivera derrotado ambos. Essa luta, inesperavelmente, deu a vitória a Ali, que se esquivava pelas cordas e penetrava na defesa de George. Ali se tornou o primeiro a derrotar George Foreman, e o único que o derrotou por nocaute. Depois de cair no ringue, foi difícil se levantar contra a depressão que desenvolveu por conta da luta – tal transtorno custou boa parte de sua carreira, já que viveu a desilusão da perca e abandonou o boxe por um período.
            
Após se aposentar do esporte que praticava, contando com um ouro olímpico e dois títulos de campeão de peso-pesado, George Foreman quase entrou em falência. Até que, depois de fazer propaganda de graça de um grill por aproximadamente um ano, a empresa Salton ofereceu-o um contrato milionário que levou ao mercado o George Foreman Grill. Apelidado como “Big George”, depois de abandonar os ringues e as luvas, tornou-se um homem de negócios bem-sucedido, e ministro cristão líder de sua própria igreja.

Norman Mailer

Norman Mailer nasceu em 1923, em Nova Jersey. Ficou conhecido por muitos pela sua consciência crítica em relação aos Estados Unidos.
            
Apesar de ter ingressado muito novo na Universidade de Harvard para estudar engenharia aeronáutica, Mailer encontrou sua paixão na literatura ao entrar em contato com diversos artigos por conta de seus estudos. Esse fato o levou a ser o pai do gênero de não-ficção, o chamado Novo Jornalismo, juntamente com Truman Capote e Tom Wolfe.
            
A experiência que viveu e inspirou o conteúdo de seu primeiro livro, Os Nus e os Mortos (1948), foi o seu serviço nas Filipinas durante a guerra. Já em sua estreia, Norman de apenas 25 anos se destaca, tendo sua obra classificada como o melhor romance já lançado sobre o front da Segunda Guerra Mundial.
            
Ganhador de dois Prêmios Pulitzer, e conhecido como uma inteligência contestadora e libertária, Norman Mailer foi preso em 1969 pela sua participação em manifestações contra a Guerra do Vietnã. Escreveu mais de 40 livros durante toda a sua vida, entre eles Os Exércitos da Noite (1968) e A Canção do Carrasco (1979), e também recebeu o National Book Award for Arts and Letters.
          
Em 1974, Mailer foi enviado a Zaire, na África, para cobrir a luta que possivelmente daria o título de campeão dos pesos-pesados de volta para Muhammad Ali. Falando especificamente do livro estudado neste trabalho, A Luta, Norman tem a façanha de narrar o duelo de boxe entre Muhammad Ali e George Foreman de maneira tão real e emocionante, que os leitores chegam a esquecer o resultado da luta, se já o conhecem, para esperar que o autor revele o vencedor através de sua escrita única.

Matéria escrita por Júlia Belioglo, estudante de Jornalismo na Unesp, em colaboração com a Revista Pauta.