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A Luta do Século parte III - Norman Mailer, Ali e o Novo jornalismo americano

Mailer assume a subjetividade ao reportar a luta e tudo que a envolveu. É um misto de Literatura com Jornalismo


O combate entre Muhammad Ali e George Foreman foi documentado de inúmeras formas, rendendo filmes, documentários e até livros. “A Luta”, de Norman Mailer, é um dos relatos mais intimista desse marcante evento. Norman Mailer narrará não somente a considerada “luta do século”, mas como todo o contexto histórico e ideológico do mundo dos anos 70, os bastidores que rondaram os campeões e todas as nuances de uma luta de boxe que tem como protagonistas dois incontestáveis campeões da categoria peso-pesado na cidade de Kinshasa, no Zaire, em pleno continente africano envolvido com revoluções e ditaduras. Mailer consegue captar esse ambiente estimulante e tenso ao mesmo tempo e transcrevê-lo para uma reportagem que viria a ser considerada uma das melhores no mundo do jornalismo esportivo.

A sensação que se tem ao ler o livro é de estar completamente inserido em tudo que envolve o evento: os treinos dos lutadores, o ambiente que paira sobre Zaire e as contradições explícitas em um país governado por um Ditador – o Mobutu -, as opiniões e apostas da imprensa e etc. Norman Mailer descreve o acontecimento de maneira a parecer ficção de tão detalhadamente escrito, com riqueza de convicções e impressões próprias. A narração em terceira pessoa observadora posiciona o leitor como um acompanhante de Ali, Foreman e até mesmo de Norman Mailer, já que o autor também se coloca em ótica de narrador observador. Observa-se a minuciosidade nos detalhes e a forma como Norman aproxima o leitor dos protagonistas da luta e dele mesmo nos seguintes trechos:

“No entanto, quando (Ali) está deprimido, sua pele pálida assume a cor do café com leite agudo, sem creme. O verde doentio de uma manhã depressiva aparece na expansão opaca da carne. Seu aspecto não é bom. Esta pode ser uma descrição razoável da aparência que tinha no campo de treinamento de Deer Lake, Pennsylvania, numa tarde de setembro, sete semanas antes de sua luta com George Foreman em Kinshasa”  (MAILER, Norman. Pag 8).

“Foreman atingia o saco (de areia) com a segurança de um homem capaz de tomar de uma marreta e derrubar uma árvore com ela. No saco formou-se uma depressão do tamanho da cabeça de George. À medida que os assaltos foram se sucedendo, o suor de Foreman formou um padrão de gotas com dois metros de diâmetro: pof! E pum! E bum!...pof!...pum!...bum!... era o som de seus punhos no saco, metodicamente, ritmicamente e tão previsivelmente hipnótico como o golpe pesado de um bate-estaca que enterra uma viga de aço na argila do solo” (MAILER, Norman. Pag 59).

“Bem, nosso homem sábio (Normam Mailer) tinha um vício. Ele escrevia sobre si mesmo. Não apenas descrevia os eventos que via, mas também seu próprio pequeno efeito sobre os eventos. Isso irritava os críticos. Mencionavam egotrips e as dimensões desagradáveis de seu narcisismo. Tais críticas não doíam muito” (MAILER, Norman. Pag 32)   
                   
O livro está longe de ser uma reportagem que prometa imparcialidade e neutralidade, muito pelo contrário. Mailer posiciona-se em favor de Muhammad Ali – muito embora ele tenha dúvidas e incertezas sobre o desempenho do lutador – e assume a subjetividade ao reportar a luta e tudo que a envolveu. É um misto de Literatura com Jornalismo, é um gênero narrativo que põe em cheque os padrões tradicionais e rompe com a falsa ideia de imparcialidade. É uma não-ficção criativa e fantástica, é o New Journalism (Novo Jornalismo) americano.

Norman Mailer, juntamente com Gay Talease, Tom Wolfe, Truman Capote entre outros jornalistas, chamará a responsabilidade de interpretar e reportar o mundo por meio da Literatura da realidade, isto é, apropriar-se do jornalismo como apresentação de fatos, na linguagem e composição da literatura. A contribuição de Norman Mailer para o mundo do Jornalismo e para a literatura americana se dá justamente pela junção desses dois gêneros a fim de narrar, documentar, reportar e testemunhar um evento que é mais que uma luta de boxe, mas sim um evento que contrapõe mundos opostos e evidencia lutas para além do ringue, tais como as injustiças sociais causadas por Mobutu – o presidente de Zaire -, questionamentos quanto à guerra fria, especificamente contra o Vietnã, e indagações do Ali quanto à afirmação da sua cor e posição social perante o representante máximo do capitalismo, o EUA. Pelo fato de Norman Mailer ter captado todas essas tensões e ter registrado de maneira factual, mas em forma narrativa, é a razão pela qual seu livro é tão reverenciado – justamente – no mundo todo.
 
Os bastidores da luta
O acompanhamento feito pelo autor nos dias que antecederam a luta nos ambienta muito bem e nos traz uma noção de como os bastidores criam o contexto dos rounds que virão. O animo das equipes é bem presente, nos mostrando que o ringue transcendem as cordas e vai muito além de apenas dois lutadores. Como já havíamos dito, a preferência de Norman não é um mistério, e, no momento em que ele chega à conclusão de que Foreman é uma pessoa agradável, um sentimento de traição o toma, como se nada menos que odiar o campeão fosse aceito naquele momento.

“Um dos sparings de Foreman era Elmo Henderson, ex-Campeão Peso Pesado Texas.[...] sua voz ecoava pelo saguão. “Oiê... Foreman buma iê[...]” (MAILER, Norman. Pag 91)

As entrevistas coletivas e até mesmo as informais retratadas, já que Norman participava sem problema da rotina de Ali, revelam George sempre mais contido e um típico Ali com o qual a imprensa já estava acostumada. Apesar de este secretamente sofrer com o medo e descrença de todos ao seu redor, era o que Norman dizia estar vendo. Os treinos mostram um Ali apático, sem energia e motivação. Um treinamento focado em apanhar, como se já aceitasse que Foreman era mais forte que ele. Do outro lado, George batia incansavelmente no saco enquanto sua equipe anunciava que o equipamento representava o Ali. 

“Digo o seguinte  para a imprensa”, declarou Ali. “Lutei contra vinte ranqueados antes da primeira luta de Foreman!”, desprezou Ali.[...] “Agora vamos ouvir Angelo ler a lista das lutas de Foreman.” À medida que os nomes iam passando, Ali não parava de fazer caretas. “Don Waldheim.” “Ninguém.”  “Fred Askew.” “Ninguém.” [...] “Vernon Clay”, disse Dundee. Ali hesitou. “Vernon Clay – este talvez seja bom.”. Os repórteres riram.” (MAILER, Norman. Pag 63).

O Vestiário 
Norman, com um papel mais de amigo do que jornalista de Ali, permaneceu junto à equipe nos instantes finais que antecederam a tão esperada luta. O vestiário de Ali era pura melancolia, o clima que rondava o ar aparentava um pós luta com o resultado favorecendo o atual campeão. Ali, sofrendo o peso que o abatimento proporcionou, até tentou motivar a todos, mas conseguiu apenas tímidos encorajamentos.

“Os homens lá reunidos não mostravam mais entusiasmo do que a decoração. Na sala estavam Dundee, Pacheco, Plimpton, Mailer [...], seu sparing, e ninguém tinha nada a dizer. “O que esta acontecendo aqui?”, perguntou Ali ao entrar. “Por que todo mundo esta tão assustado?” Começou a tirar as roupas e logo, vestido apenas com um suporte anatômico, dançava pela sala fazendo sombra com o ar.” (Mailer, Norman. Pag 146)

“Vamos dançar”, gritava Ali enquanto voava pela sala, divertindo-se cada vez que quase se chocava contra os pilares às suas costas. [...] “É”, gritou, “vamos ferrar ele”, atirando jabs ao ar.
[...] “Acho que estou mais assustado do que você”, disse Norman. [...]” (Mailer, Norman. Pag 147)

A luta na Narração de Norman Mailer 
 
No momento da luta, o que ocorre já pelo final do livro, o escritor descreve com maestria cada detalhe, fazendo o leitor se colocar como um dos telespectadores que se encontravam no estádio. As apreensões, incertezas, cada golpe desferido nos faz sofrer como se nenhum de nós conhecesse o desfecho de tal show.

“O gongo! Em meio a um suspiro longo e inaudível de alivio coletivo, Ali arremeteu através do ringue. Parecia tão grande e determinado quanto Foreman, era dessa forma que se apresentava, como se ele fosse a verdadeira ameaça. [...] Ali deu o primeiro soco, uma esquerda tenteante. O golpe foi curto demais. Aí ele disparou o relâmpago de uma direita bem no centro atordoado da cabeça de Foreman, um direto reto como uma vara, com o tchonc inconfundível de um soco de alta potencia. Um grito na plateia. Seja o que for que tivesse ocorrido além disso, Foreman fora atingido. Havia anos que nenhum oponente acertara Foreman de modo tão duro, e nenhum sparing tinha se atrevido a tanto” (MAILER, Norman. Pag 158)

“[...] De repente, Foreman atingiu Ali com um duro golpe de direita. Ali segurou-se a Foreman para dissipar o choque. Depois da luta diria que alguns dos socos de Foreman chegavam até as pontas de seus pés, e aquele deve ter sido um desses.” (MAILER, Norman. Pag 163)


Matéria escrita por nossa autora e Amanda Melo, estudante de jornalismo da Unesp, em colaboração com a Revista Pauta.