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A violência do futebol narrada por uma torcedora

Estádios de Futebol fazem borbulhar as contradições da sociedade, e com a violência não poderia ser diferente


O clássico entre Flamengo e Corinthians realizado no último domingo, válido pela 32ª rodada do campeonato brasileiro, foi marcado por confusão e conflito entre a Polícia Militar do Rio e alguns torcedores. Provocações entre flamenguistas e corinthianos resultaram em tentativa de invasão de ambas torcidas nos espaços destinados aos paulistas e cariocas. A PM interveio e entrou em choque com os alvinegros. Houve trocas de socos, e alguns seguranças, acuados, foram agredidos até o reforço do policiamento

Ao término da partida, os corinthianos foram obrigados a permanecer no estádio para que uma revista fosse realizada. A fim de identificar os agressores e prendê-los, os torcedores foram obrigados, de forma humilhante, a ficar sentados sem camisa para serem revistados um a um. Apenas mulheres e crianças foram liberadas do estádio.

Essa história reacende o debate a cerca da violência nos estádios, das torcidas organizadas e do futebol moderno. A forma como esta discussão é colocada pela mídia, porém, é extremamente controversa, uma vez que expõe apenas fatos fragmentados e partidários do acontecimento, muitas vezes ignorando a versão de um dos protagonistas deste enredo: o torcedor. Constantemente demonizados e generalizados como criminosos, os torcedores sofrem jogo após jogo inúmeras humilhações e descasos da polícia, autoridades e até dirigentes dos clubes que passam despercebidos pela mídia. 

Para tratar desta discussão tão polêmica, nada melhor que dar voz àqueles que estiveram presentes no estádio do Maracanã, cujas perspectivas são ora ignoradas ou omitidas quando se trata de violência no futebol. Deixamos claro, porém, que repudiamos todo ato de violência - física e moral - independente de onde ela parta.

O "Movimento Toda Poderosa Corinthiana" - página do facebook criada por torcedoras corinthianas que combatem o machismo dentro do futebol  - divulgou um relato de uma torcedora cujo nome, por questão de segurança, será mantido em sigilo. Em sua narrativa, conta que a segurança no estádio do Maracanã coloca os torcedores visitantes em constante perigo. Ela reporta que "não havia um caminho 'menos ruim' para a torcida visitante", inevitavelmente sendo obrigada a passar "no meio de um monte de torcedores flamenguistas". Trinta minutos antes de começar a partida, a primeira grande confusão que aconteceu foi perto dos banheiros: 

"Recebemos a seguinte informação de uma funcionária do estádio: 'os torcedores do Flamengo estão quebrando a grade, fiquem dentro do banheiro feminino'. Logo vimos que a polícia estava 'afungentando' os torcedores corinthianos com cassetetes e spray de pimenta".

Com a bola rolando no primeiro tempo, a confusão foi instalada no setor corinthiano entre PM e torcedores: "Várias mulheres e crianças descendo os degraus às pressas procurando um lugar menos perigoso". No intervalo de jogo, mais confusão. A torcedora ainda sofreu agressão por parte de policiais mesmo estando no chão.

"Começaram a gritar para as mulheres irem para um canto, da seguinte forma 'MULHERES, PARA O CANTO ALI, QUEM FICAR AQUI VAI APANHAR JUNTO'. Ali junto com a gente também tinham alguns poucos homens que foram 'selecionados' pelos PMs através de suas aparências: homens mais “bem vestidos”, que não tinha cara de pobre ou de maloqueiro, ou seja, quem não tinha cara de corinthiano podia ficar conosco. O resto ia apanhar, sem negociação." 

Ao fim do jogo, a torcedora conta como foi a ação da polícia na revista para caçar alguns agressores: "Aos poucos começaram a liberar as 'famílias', mulheres, crianças. Alguns amigos estavam presos lá em cima e já não estavam liberando ninguém para descer ou subir. E foi aí que a pior parte começou. Aquelas cenas lamentáveis que todos viram na TV. Parecia o Carandiru (e, segundo relatos, um dos policiais gritou em alto e bom som que essa era a intenção)."
 
A partir do relato apresentado e da divulgação de imagens por parte da mídia, fica claro a necessidade de abordar a violência nos estádios com uma complexidade muito maior do que o simples maniqueísmo de que os torcedores são bandidos, e a polícia, os heróis. Domingo, no Maracanã, teve violência por parte de alguns torcedores tanto flamenguistas quanto corinthianos, e repressão, humilhação e agressão por parte da Polícia Militar. É essencial atribuir as devidas responsabilidades aos atores desta velha peça.  Estádios de Futebol fazem borbulhar as contradições da sociedade, e com a violência não poderia ser diferente.

"Teve muita gente inocente sendo ofendida, agredida, exposta, humilhada, torturada. E isso não é de hoje. Quem frequenta jogos e caravanas sabe o quanto o tratamento com torcidas visitantes é ridículo, principalmente se tratando de Corinthians."

Confira a íntegra do relato aqui