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Bates Motel e a releitura de Alfred Hitchcock

O assassino Norman Bates faz agora novas vítimas depois de Marion Crane


Norman Bates, eterno personagem psicopata de Alfred Hitchcock, em Psicose, retorna à tela na série Bates Motel, produzida por Carlton Cuse, Kerry Ehrin e Anthony Cipriano. Atualmente com quatro temporadas, a série chegará ao seu fim na 5ª temporada com a introdução da personagem Marion Crane, que foi o ponto de partida do filme Psicose. 

Como toda reprodução de uma obra de arte, inúmeras alterações e interpretações surgem a cerca da história de Norman apresentada por Hitchcock. A série contará a adolescência do personagem principal e o processo familiar e social que culminou no desenvolvimento de sua doença psicológica. Para tal, a relação abusiva de Norman e sua mãe, Norma, será extremamente aprofundada e constituirá o foco principal da série. 

Em consequência, como produto de massa inserido no contexto da indústria cultural, é interessante observar como o conceito desenvolvido por Walter Benjamin de reprodutibilidade a cerca de uma obra de arte é facilmente identificado em todo o processo da história de Norman Bates. Apesar de ser conhecida atualmente como personagem criado para a sétima arte, originalmente a história é contada por livro de Robert Bloch, publicado em 1959, retratando fatos reais de um assassinato em Winsconsin, nos Estados Unidos, por Ed Gein, um psicopata que vivia com a mãe em uma relação conturbada e vestia-lhe as roupas. Norman Bates, portanto, veio de Ed Gein. Alfred Hitchcock apropriou-se deste fato e do livro para criar outra interpretação, assim como Bates Motel insere outros posicionamentos a partir da obra de Hitchcock. Observa-se um ciclo de reprodutibilidade possibilitado pela indústria cultural que culminou em várias interpretações e a perda da autenticidade da obra original. Por outro lado, foi possível materializar inúmeras situações e nuances diferentes para os personagens e, inclusive, a adição de outros, como o irmão mais velho de Norman, o Dylan.

Ed Gein, psicopata que inspirou na criação do personagem Norman Bates
A Série

Buscar reproduzir e recriar uma história já consolidada e ícone da história do cinema não é uma tarefa fácil, entretanto Bates Motel soube explorar a complexidade de uma relação não muito abordada por Hitchcock – e talvez este seja o maior acerto da série -, a relação abusiva de Norman e Norma. O principal objetivo da série é explicitar o porquê do comportamento do Norman e mergulhar no oceano da psicanálise para desenvolver a trama.

A Atuação de Vera Farmiga (Invocação do Mal) como a mãe de Norman (Norma) é excepcional e um dos principais atrativos da série. Finalmente é dado a nós um histórico de uma personagem tão problemática na vida de Norman. Percebe-se a necessidade dela de proteger o filho, mas a manipulação e o controle por parte da mãe em ocultar e esconder da sociedade e deles mesmos a doença de Norman contribuíram não só para a sua evolução, mas como um verdadeiro potencial de perigo para a própria integridade física dos dois. 

O ator Freddie Highmore, por sua vez, surpreende com a evolução de seu personagem ao decorrer das temporadas, retratando um Norman Bates inicial como um garoto comum do ensino médio e depois apresentando uma transformação e expressão de seus mais assustadores surtos psicóticos que resultam em assassinatos.

Freddie Highmore, de Bates Motel, e Anthony Perkins, de Psicose, como Norman Bates

A série nos leva desde o princípio do problema do Norman – a morte de seu pai – até a associação da personalidade dele com a sua mãe, o momento em que ele se vê como Norma Bates. É claramente uma proposta de flashback da história levada por Psicose. A

A quarta temporada acaba com a morte de Norma causada pelo próprio filho. Norman, porém, nega este fato e acredita fielmente que a mãe está viva. Quase ao ponto de desistir dessa hipótese, ele a enxerga: a consolidação da loucura e doença do assassino e psicopata Norman Bates. Sem dúvidas, é uma produção cuidadosa e bem pensada apesar da problemática de reinterpretar uma história já interpretada.

Norman Bates em surto psicótico: ele enxerga-se e age como sua mãe, Norma.

Para a última temporada da série, os roteiristas preveem a inserção da personagem Marion Crane na vida de Norman. A partir deste ponto, começa a história do filme Psicose. A forma como será feita essa releitura é um dos aspectos mais esperados da série.

É inegável pensar como a indústria cultural tem a capacidade quase ilimitada de vender, reproduzir e lucrar em cima de uma obra que já se perdeu a autenticidade. É inegável também, porém, o legado da série para a construção da memória e da tomada de conhecimento de filmes clássicos para as novas gerações.