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Jornalismo Ambiental e a relação holística na divulgação de projetos sustentáveis

É preciso repensar o modo de se fazer jornalismo ambiental


              A sociedade atual passa por mudanças significativas nas esferas sociais e ambientais. As tensões a cerca do consumismo desenfreado, as mudanças climáticas e a constante inserção de agrotóxicos na alimentação da população mundial são questões que não mais passam despercebidas pelo cidadão comum. Como respostas, muitas famílias vêm aderindo ao modelo sustentável de viver baseada na permacultura – plantação de horta livre de agrotóxicos, 100% orgânico e pautado no sistema Mandalla de agricultura (foto acima), rompendo com o padrão tradicional – e a bioconstrução – projetos de construção à base de materiais, por exemplo barro, areia, bambu, mangueiras térmicas, teto solar, entre outros, com mínimo impacto ambiental e baixo custo de produção -.
 Tal processo não deixa de ser um fenômeno que envolve engenheiros, pesquisadores, pensadores sociais e, principalmente, cidadãos comuns em manifestar uma posição contra o sistema capitalista vigente e propor um estilo de vida alternativo sustentável baseado em um ciclo fechado biológico – no qual o ser humano é apenas mais um a compô-lo – refutando, portanto, a hierarquia que hoje se estabelece com a natureza.
Diante de tais respostas da sociedade e do meio ambiente, é preciso repensar o modo de se fazer jornalismo ambiental. Girardi (2006) faz uma crítica ao jornalismo fragmentário existente e propõe um jornalismo que aborde o amplo, sem exclusão e que envolva um contexto social cuja consciência seja sustentável. Uma visão holística se faz cada vez mais urgente em um tema tão delicado como o ambientalismo: a observação de todas as partes com o fato, o conjunto e o seu envolvimento com o objeto e não a mera descrição dele. É entender o jornalismo como entender a natureza: um ciclo em que todas as partes são essenciais ao funcionamento da vida, da terra e do universo. A ampliação e abordagem complexa a cerca da sustentabilidade são mais que urgentes na comunicação social.

Jornalismo Holístico na incorporação do ambientalismo

Diante das necessidades da sociedade contemporânea em desenvolver um modelo econômico e socialmente sustentável, o jornalismo ambiental tem o desafio de se reinventar e procurar estabelecer uma atuação mais encorpada, analisando o todo e sem cair na fragmentação dos fatos e sua correlação com a sociedade. De acordo com Canuto (1996, pag. 130), a “imprensa tende a comunicar uma visão ainda bastante banalizada da questão ambiental, e o cidadão comum não consegue ver senão as aparências do problema”. A explicação reside no fato de que os órgãos de comunicação e a mídia são formas de legitimação da ideologia dominante que não compactua com o desenvolvimento sustentável ecológico. Dificultam-se, portanto, não só uma apuração e apresentação da realidade atual da sociedade por meio do jornalismo, como a própria falha na formação do profissional de mídia como educador ambiental e promotor de debates e questionamentos quanto à realidade que o cerca. Para Morin (2002), o modelo econômico – estrutura macro do capitalismo – também é um forte fator de coerção na atuação do jornalismo, pois a “economia está fechada em si mesma e de costas para aspectos sociais, culturais e ecológicos. Todas as questões levantadas até aqui podem ser classificadas como limites para a abordagem da questão ambiental no jornalismo.”
Como oposição ao modo “mecanicista da razão cartesiana”– a legitimação do progresso científico e exploração da natureza como infinita – (Giardi, 2006) surge, em meados da década de 1950, a teoria das redes relações vivas, que compreende a terra como um sistema que integra dinamicamente seres vivos e não vivos. É a concepção de que o mundo se dá por meio da natureza e que os seres humanos são, também, natureza. Embora pareça uma ideia óbvia, essa teoria resgata o papel do homem na terra e de todos os outros seres inseridos no ciclo biológico da vida, afinal, como afirma Boff (1995), a sustentabilidade vem da biologia, campo inverso da economia.
Esta visão apresenta-se na contramão do cartesianismo, propondo-se fugir de moldes obsoletos e remetendo à cidadania e à solidariedade, fundamentada em olhares ecológicos mais profundos. A proposta visa promover uma superação do pensamento baseado na revolução científica calcada na objetificação da natureza e no reducionismo”. (Giardi, 2006)
Seguindo o raciocínio de Boff, a sustentabilidade só é plenamente atingida quando o equilíbrio entre as espécies em relação ao meio ambiente é estabelecido – e neste ponto é importante destacar, principalmente, o ser humano como parte deste equilíbrio, já que a ideologia dominante insiste em deslocar o homem da natureza e, consequentemente, da sustentabilidade.
A sustentabilidade vem desse equilíbrio, e nessa perspectiva não dá para ter um desenvolvimento sustentável nos modernos moldes do capitalismo, porque, entre desenvolvimento e ecologia, sempre quebra do lado da ecologia” (Boff, 1995, p. 12).

Permacultura e Bioconstrução como projeto sustentável e tema no jornalismo ambiental

Partindo do princípio da busca cada vez mais urgente na sociedade por um modelo de vida sustentável, a permacultura e a bioconstrução surgem como modelos da aplicação da sustentabilidade propostos por acadêmicos da área de engenharia, principalmente. O projeto consiste na construção das chamadas ecovilas – em que todo o processo de construção e de cultivo é feito em sistemas fechados, ou seja, sem desperdício, com baixo custo material, mínimo impacto ambiental e levantado por núcleos familiares que buscam fugir do padrão consumista da sociedade capitalista. É uma visão de sociedade que tem como princípio a coletividade e o funcionamento individual em prol do coletivo. A filosofia da permacultura engloba, portanto, a vida como um ciclo no qual o ser humano é mais um a compor a rotatividade dos ciclos biológicos.

Bioconstrução e sustentabilidade
O desafio do jornalismo é debruçar sobre projetos sustentáveis como a permacultura aliada à bioconstrução, sem cair na falha da fragmentação. Como articulador da democracia e promoção do exercício da cidadania, o jornalismo deve ampliar a sua óptica a fim de observar a relação dos integrantes da sociedade para com o ambientalismo. É, de fato, a visão holística, completa e não fragmentada sobre a realidade contemporânea, como afirma Capra (1982).
Os jornalistas deverão mudar, e seu modo de pensar, fragmentário, deverá tornar-se holístico, desenvolvendo uma nova ética profissional baseada na consciência social e ecológica. Em vez de se concentrar em apresentações sensacionalistas de acontecimentos aberrantes, violentos e destrutivos, repórteres e editores terão de analisar os padrões culturais e sociais complexos que formam o contexto destes acontecimentos, assim como noticiar as atividades pacíficas, construtivas e integrativas que ocorrem em nossa cultura”. (Capra, 1982, p.400).
Giardi (2006) reforça a necessidade e urgência da atuação de um jornalismo consciente e conciso, que aborde o ambientalismo de uma forma mais densa e real.
Sabemos que a comunicação sobre ambiente se tornou mais eficaz nos últimos anos, talvez, principalmente, porque os problemas relacionados à questão ambiental têm afetado de forma crescente a vida das pessoas. Mas até que ponto a necessidade de se pensar um futuro ambientalmente sustentável está claro para todos? Operar jornalisticamente neste terreno levanta a necessidade de jornalista que não reforce o estigma de que meio ambiente é sinônimo de fauna e flora.” (Giardi, 2006).


Referências

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; MASSIERER, Carine; SCHWAAB, Reges. Pensando o jornalismo ambiental na ótica da sustentabilidade. In: UNIrevista 1, n. 3 (julho 2006).

CAPRA, F. 1982. O ponto de mutação. São Paulo, Cultrix.

MORIN, E. 2002. Sete saberes necessários à Educação do Futuro. 5ª ed. São Paulo, Cortez; Brasília, DF, UNESCO. Tradução de Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya.

BOFF, Clodovis; BOFF, Leonardo, 1985a, 1985b, 1986; GALILEIA, 1985; GUTIERREZ, 1985