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Cowspiracy e o debate da sustentabilidade

É interessante perceber como a propaganda para mudança do uso de água e energia da população é constante, mas o desestímulo ao consumo de carne é algo impensável e inquestionável



Cowspiracy, um documentário realizado por Kip Andersen e Leonardo Dicaprio, propõe-se a discutir os efeitos e consequências da indústria pecuária na crise ambiental atual e buscar alternativas sustentáveis para evitar o colapso da terra. Para os autores do longa, a indústria da carne é a principal promotora das mudanças climáticas, destruição de florestas tropicais, desaparecimento dos corais no oceano, efeito estufa e desperdício de água e etc. O que mais chama a atenção em Kip, porém, é o fato de que ninguém - nem mesmo organizações ambientais como o Greenpeace - questionam o consumo de carne como um dos maiores fatores da degradação da terra. Em uma jornada de jornalismo investigativo intenso, Kip vai atrás de respostas para entender por que o mundo faz questão de esconder as consequências ambientais da pecuária.

O documentário pode ser dividido em duas partes, basicamente. A primeira trata-se de apresentação dos fatos acerca do consumo de água, soja e energia para sustentar a indústria da carne, aliada ao confrontamento de organizações ambientais. Em relatório divulgado pela ONU, o gado é responsável por 51% das mudanças climáticas devido à liberação do gás metano, 86 vezes mais danoso à atmosfera do que o dióxido de carbono (CO2), liberado por combustíveis fósseis - apontados por muitas organizações como o principal vilão do efeito estufa - e pela indústria automobilística, por exemplo. Uma de suas principais consequências, porém, é proveniente dos recursos necessários para manter a enorme quantidade de gados existentes no mundo: são necessários 30% da água, 45% da terra e 50% dos grãos e legumes produzidos do mundo para atender às demandas do consumo de carne.


Kip questiona, então, por que tanto lobby para mudanças cotidianas, como banhos mais rápidos e uso de bicicletas, e praticamente zero questionamentos quanto ao consumo de carne que sustenta a enorme indústria pecuária. O cineasta vai, então, em busca de entrevistas e confronta instituições como Greenpeace e NRDC, colocando-as em posições desconfortáveis ao não saberem responder sobre a pecuária como uma da maiores causas do efeito estufa. Sãos trabalhos admiráveis de Kip em sua persistência jornalística e coragem enfrentar e incomodar grandes corporações. Em um dado momento da produção, Kip teve seu patrocínio cortado por se tratar de um assunto "controverso". De uma forma bem convincente, o cineasta consegue levantar argumentos bem fundamentados - e  com evidências - da articulação por trás de uma indústria tão enraizada na população mundial como a carne.


Por fim, na segunda parte, Kip foca em construir caminhos para a sustentabilidade por meio do veganismo. Percebe-se uma clara propaganda ao estilo de vida que exclui a carne e alimentos derivados de animais (ovos, leite, manteiga) da refeição. Para isso, o cineasta busca entender outras formas de criação de gados - como a criação de animais baseada em capim - e agricultura de subsistência. É clara a posição de Kip ao refutar essas alternativas, mostrando a inviabilidade, por meio de números, da criação fundamentada em capim em sua escala global e apelando para algumas cenas sensacionalistas e emotivas em relação aos animais, quando visitou um agricultor subsistente. Kip recorre novamente aos números para embasar seu ativismo veganismo ao demonstrar as vantagens quanto ao consumo de água e alimentos em um mundo vegano.
O documentário faz um forte incentivo vegano
O ponto mais pertinente do documentário reside no questionamento acerca da consciência política do consumo de carne, não necessariamente vegetariana ou vegana. O cineasta acerta em cheio ao provocar reflexão do lobby articulado para a existência da pecuária, mesmo que o custo para essa demanda seja a destruição do planeta. É interessante perceber como a propaganda para mudança do uso de água e energia da população é constante, mas o desestímulo de carne é algo impensável e inquestionável.